Inovação em saúde e as parcerias entre clínicas e healthtechs

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez 6 Min de leitura

O debate em torno da inovação em saúde tem ganhado contornos cada vez mais concretos no Brasil, à medida que clínicas de diagnóstico por imagem estabelecem parcerias formais com startups de tecnologia voltadas especificamente ao setor, buscando incorporar soluções que dificilmente conseguiriam desenvolver internamente com a mesma velocidade observada em empresas especializadas nesse tipo de desenvolvimento. Gustavo Khattar de Godoy, médico com formação de pós-doutorado no Johns Hopkins Hospital e doutorado em Clínica Médica pela Unicamp, tem acompanhado esse movimento de aproximação entre instituições assistenciais tradicionais e empresas de tecnologia em saúde, reconhecendo que essa colaboração acelera significativamente a incorporação de inovações relevantes.

Por que clínicas tradicionais buscam parcerias com healthtechs?

Clínicas de diagnóstico por imagem, historicamente organizadas em torno de competências assistenciais e administrativas tradicionais, frequentemente não possuem estrutura interna adequada para desenvolver soluções tecnológicas sofisticadas, como algoritmos de inteligência artificial ou plataformas digitais de relacionamento com pacientes. Segundo Gustavo Khattar de Godoy, a parceria com empresas especializadas em tecnologia permite que essas clínicas incorporem inovações relevantes sem assumir integralmente os riscos e custos associados ao desenvolvimento tecnológico próprio. Essa divisão de esforços, quando bem negociada contratualmente, cria relação de benefício mútuo entre instituições com competências complementares.

A escolha do parceiro tecnológico adequado, no entanto, exige avaliação criteriosa que vai além de demonstrações comerciais convincentes, considerando aspectos como maturidade da solução, histórico de implementação bem-sucedida em instituições similares e capacidade da empresa de tecnologia de sustentar suporte técnico contínuo ao longo do tempo. Clínicas que selecionam parceiros sem esse cuidado prévio frequentemente enfrentam frustração após investimento significativo em soluções que não atendem plenamente às necessidades específicas de sua operação.

Quais modelos de parceria costumam funcionar melhor?

Diferentes formatos de colaboração entre clínicas e healthtechs têm se mostrado viáveis no mercado brasileiro. Na interpretação de Gustavo Khattar de Godoy, modelos que preveem períodos de teste controlado antes da implementação definitiva tendem a reduzir significativamente o risco de investimentos malsucedidos, permitindo que ambas as partes avaliem, com dados reais de utilização, se a solução proposta efetivamente resolve o problema assistencial ou administrativo que motivou a parceria originalmente. Contratos que preveem metas claras de desempenho, acompanhadas de indicadores objetivos de avaliação, também facilitam a gestão contínua dessas parcerias ao longo do tempo.

A definição clara sobre propriedade de dados gerados durante a parceria representa outro aspecto contratual sensível, especialmente quando a solução envolve processamento de informações clínicas sensíveis dos pacientes atendidos pela instituição. Cláusulas bem redigidas sobre uso, armazenamento e eventual compartilhamento desses dados protegem tanto a clínica quanto os pacientes envolvidos, evitando disputas futuras sobre a titularidade e o uso adequado dessas informações.

Gustavo Khattar de Godoy
Gustavo Khattar de Godoy

Como avaliar o real impacto assistencial dessas inovações?

A incorporação de soluções tecnológicas desenvolvidas por healthtechs precisa ser acompanhada de avaliação criteriosa sobre seu impacto real na qualidade assistencial e na eficiência operacional da instituição. Gustavo Khattar de Godoy aponta que indicadores objetivos, como redução de tempo de laudo, diminuição de retrabalho administrativo ou melhoria em indicadores de satisfação de pacientes, oferecem base mais sólida para avaliar o sucesso dessas parcerias do que percepções subjetivas sobre modernização tecnológica da instituição. Clínicas que estabelecem esses indicadores antes mesmo de iniciar a implementação conseguem avaliar com maior objetividade se a parceria efetivamente cumpriu os objetivos originalmente definidos.

A revisão periódica dessas métricas, com disposição para descontinuar parcerias que não produzem resultados satisfatórios, exige maturidade organizacional para reconhecer que nem toda inovação tecnológica promissora se traduz automaticamente em benefício prático sustentável para a instituição específica.

Qual o papel do ecossistema de inovação em saúde no Brasil?

O crescimento do ecossistema brasileiro de startups voltadas à saúde, impulsionado tanto por investimento privado quanto por programas de fomento à inovação, tem ampliado significativamente as opções disponíveis para clínicas que desejam estabelecer parcerias tecnológicas relevantes. Gustavo Khattar de Godoy esclarece que a maturidade crescente desse ecossistema, embora ainda distante da observada em mercados internacionais, já oferece soluções específicas para diferentes desafios enfrentados por clínicas de diagnóstico por imagem, desde gestão de agenda até análise avançada de imagens médicas. Essa diversidade de opções exige, por outro lado, maior capacidade de curadoria por parte das instituições, que precisam avaliar qual a melhor solução para cada necessidade em meio a um mercado cada vez mais amplo de alternativas disponíveis.

A construção de relações estratégicas de longo prazo entre clínicas de diagnóstico por imagem e empresas de tecnologia em saúde representa caminho promissor para acelerar a modernização do setor, desde que conduzida com critério técnico e avaliação constante de resultados efetivamente alcançados.

Compartilhe esse artigo