Levantamento da Agência Lupa encontrou 86 vídeos que simulavam telejornais para divulgar números fabricados sobre as eleições de 2026.
A menos de um ano das eleições presidenciais, o TikTok se tornou palco de uma onda de vídeos manipulados por inteligência artificial que simulam reportagens de telejornal para divulgar pesquisas eleitorais que nunca existiram. Um levantamento da Agência Lupa, publicado em julho, identificou 86 vídeos desse tipo publicados entre março e julho de 2026, somando 1,47 milhão de visualizações na plataforma até a data da investigação.
Como funciona o esquema de deepfakes
Dos 86 vídeos mapeados, 65 (o equivalente a 75,6% do total) usavam inteligência artificial para criar ou manipular imagens e vozes, na maioria das vezes reproduzindo o rosto e a fala de jornalistas e figuras públicas conhecidas para dar falsa credibilidade a números de intenção de voto sem qualquer registro oficial no Tribunal Superior Eleitoral. Apesar de o TikTok exigir que conteúdos gerados ou significativamente editados por IA sejam identificados com um selo próprio, apenas nove desses vídeos, ou 13,8% do total, traziam essa marcação, o que evidencia falhas na aplicação da própria política de transparência da plataforma.
O levantamento mostrou ainda uma concentração temporal relevante: 68 das 86 publicações foram feitas apenas em junho, sinal de que a produção desse tipo de conteúdo tende a se intensificar conforme o calendário eleitoral avança. Entre os personagens mais usados nos vídeos fabricados estão o senador Flávio Bolsonaro (12 aparições), o deputado federal Nikolas Ferreira (11) e o jornalista César Tralli (10), seguidos por Michelle Bolsonaro, Renata Vasconcellos, Gustavo Gayer, Luciano Huck e William Bonner.
Além dos deepfakes de pessoas reais, a investigação identificou sete casos de personagens totalmente sintéticos, criados por IA para simular jornalistas e especialistas políticos que não existem. A estratégia busca conferir aparência de autoridade a conteúdos falsos, explorando o fato de que o público tende a confiar mais rapidamente em formatos visuais que imitam telejornais conhecidos.
O modelo de negócio por trás da desinformação
Um dos casos descritos pela Lupa chama atenção pelo padrão de comportamento identificado: uma conta publicou 21 vídeos falsos em apenas nove dias, somando 130,4 mil visualizações, 18,8 mil curtidas e 3,8 mil comentários, mas apenas três desses conteúdos exibiam a marcação de IA exigida pela plataforma. Passado esse período de intensa publicação, o mesmo perfil passou a divulgar apenas anúncios de produtos, um padrão conhecido entre pesquisadores de desinformação como “conta dark”, que usa temas polêmicos para acumular audiência antes de monetizar esse público de outras formas.
Outro perfil reaproveitou o mesmo roteiro de fala em diferentes vídeos, alterando apenas a pessoa retratada e pequenos elementos de edição, atribuindo a mesma narrativa fabricada a jornalistas distintos, como César Tralli, Renata Vasconcellos e Elisa Veeck, da CNN Brasil. Essa reciclagem de conteúdo permite multiplicar o alcance de uma única mensagem falsa usando vários rostos conhecidos, dificultando o trabalho de identificação por parte das próprias plataformas.
Após ser procurado pela reportagem, o TikTok confirmou a remoção dos vídeos identificados por violarem suas diretrizes sobre mídia editada e conteúdo gerado por inteligência artificial, reforçando que não permite retratar figuras públicas fazendo declarações ou defendendo posições que nunca ocorreram. A empresa também citou números de eleições anteriores, informando ter bloqueado mais de 46 mil tentativas de anúncios políticos irregulares e removido mais de 101 mil vídeos por violação de políticas eleitorais em 2024, além de manter parceria com o centro de combate à desinformação do TSE.
Como o eleitor pode se proteger
Para quem quer verificar se uma pesquisa divulgada nas redes é real, o caminho mais seguro é consultar o sistema PesqEle, disponível no portal do TSE, que reúne todas as pesquisas oficialmente registradas com informações sobre instituto responsável, período de coleta, tamanho da amostra e margem de erro. A ausência desses dados em uma publicação, segundo especialistas consultados pela reportagem, já é um forte indício de que os números divulgados não correspondem a um levantamento oficial.
Vale lembrar também que pesquisa eleitoral não é previsão de resultado, e sim um retrato do momento em que os eleitores foram entrevistados, podendo mudar ao longo da campanha conforme debates, notícias e outros fatores. Compreender essa diferença ajuda o eleitor a interpretar com mais cautela tanto os levantamentos verdadeiros quanto as tentativas de manipulação que circulam disfarçadas de dado oficial.
O episódio reforça um desafio que tende a crescer conforme as eleições se aproximam: conciliar o avanço acelerado das ferramentas de inteligência artificial generativa com mecanismos de verificação capazes de identificar, na velocidade das redes sociais, o que é conteúdo real e o que é fabricação digital.
