Deepfakes crescem quase 900% e ficam cada vez mais difíceis de identificar

Roberto Valtieri
Por Roberto Valtieri 6 Min de leitura

Número de vídeos e áudios falsos criados por inteligência artificial disparou nos últimos anos, e o celular virou a principal porta de entrada para esses conteúdos

A inteligência artificial evoluiu tanto nos últimos anos que identificar um deepfake deixou de ser uma tarefa simples até para quem já está acostumado a desconfiar de conteúdos suspeitos na internet. Estimativas do setor de segurança digital indicam que o número de deepfakes em circulação saltou de cerca de quinhentos mil em 2023 para aproximadamente oito milhões, um crescimento de quase novecentos por cento em poucos anos, movimento que coloca o celular como a principal porta de entrada para esse tipo de conteúdo manipulado.

O que são deepfakes e como eles evoluíram

Deepfakes são vídeos, áudios ou imagens criados por algoritmos de aprendizado profundo capazes de substituir o rosto ou a voz de uma pessoa real por outra, com um nível de realismo que aumenta a cada nova geração de ferramentas de inteligência artificial. Nos primeiros anos dessa tecnologia, era relativamente fácil identificar um conteúdo falso: bordas borradas, iluminação inconsistente e expressões faciais que não combinavam com o movimento do corpo denunciavam rapidamente a manipulação, como aconteceu com um vídeo viral e antigo que mostrava um ator famoso comendo espaguete, produzido por IA e famoso justamente pelos movimentos artificiais e pela textura estranha do rosto.

O cenário mudou de forma significativa nos últimos anos, à medida que os modelos de inteligência artificial passaram a rodar em placas gráficas mais avançadas, capazes de processar volumes muito maiores de dados. Esse avanço permitiu que os deepfakes se tornassem cada vez mais sofisticados e próximos da realidade, abrindo espaço para o uso dessa tecnologia em crimes que antes dependiam de recursos técnicos muito mais caros e complexos de se obter.

Onde esses conteúdos mais aparecem

Boa parte dos deepfakes em circulação hoje está associada a golpes financeiros, vídeos vexatórios criados para constranger ou chantagear vítimas, falsificação de identidade e desinformação em geral, incluindo o ambiente político. Um levantamento da empresa de verificação de identidade Sumsub apontou que as fraudes envolvendo deepfake no Brasil cresceram 126% entre 2024 e 2025, o que coloca o país entre os principais responsáveis por esse tipo de conteúdo detectado na América Latina.

Esse crescimento acelerado tem relação direta com a facilidade de acesso a ferramentas de geração de imagem, voz e vídeo por inteligência artificial, que hoje estão disponíveis para qualquer pessoa com um smartphone, sem exigir conhecimento técnico avançado. O que antes era uma tecnologia restrita a grandes estúdios ou especialistas em edição se tornou acessível ao público em geral, o que ajuda a explicar por que o volume desse tipo de conteúdo aumentou tão rapidamente nos últimos anos.

Os sinais que ainda ajudam a identificar um vídeo falso

Mesmo com todos esses avanços, os modelos de inteligência artificial ainda tropeçam em detalhes sutis que humanos costumam perceber sem muito esforço. Em vídeos, vale observar sinais como piscadas irregulares, boca fora de sincronia com a fala e pele com textura pouco natural, além de possíveis distorções em mãos, olhos e dentes, elementos que a inteligência artificial ainda tem dificuldade de reproduzir com perfeição em todos os quadros da gravação.

Em áudios, a atenção deve se voltar principalmente para o ritmo e a emoção da fala. Vozes geradas por inteligência artificial costumam soar mais monótonas e com pouca variação emocional em comparação à fala humana natural, além de apresentarem um ritmo estranhamente uniforme, sem as pausas espontâneas típicas de uma conversa real. Ainda assim, especialistas reforçam que nenhum desses sinais comprova isoladamente que um conteúdo é falso, já que os deepfakes mais avançados podem não apresentar nenhuma dessas falhas visíveis a olho nu.

Como se proteger no dia a dia

Diante da dificuldade crescente em identificar manipulações apenas pela aparência, a recomendação mais segura é sempre verificar a procedência do material antes de acreditar ou compartilhar qualquer conteúdo. Perguntas simples ajudam nesse processo: quem publicou o vídeo pela primeira vez, se ele aparece nos canais oficiais da pessoa retratada e se existem versões anteriores da mesma gravação que possam confirmar ou desmentir o conteúdo em questão.

Existem também ferramentas gratuitas voltadas à detecção de deepfakes, como scanners especializados em identificar sinais de manipulação em vídeos e áudios, que podem ajudar nessa verificação inicial. Mesmo assim, especialistas alertam que esses serviços não devem ser vistos como prova definitiva, funcionando mais como um recurso complementar à checagem tradicional. Diante do crescimento acelerado dessa tecnologia, cultivar o hábito de checar antes de compartilhar segue sendo a defesa mais eficaz contra a desinformação criada por inteligência artificial.

Fontes:
https://exame.com/tecnologia/examelab/como-identificar-deepfakes-em-video-e-audio-no-celular-ferramentas-e-dicas-praticas/
https://exame.com/tecnologia/examelab/deepfake-7-detalhes-para-descobrir-se-um-video-e-falso/

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