Montagem feita com inteligência artificial reaproveita entrevista de mais de dez anos atrás para forjar declaração que o cantor nunca fez sobre as eleições de 2026
Um vídeo com mais de cem mil visualizações no TikTok voltou a mostrar como a inteligência artificial vem sendo usada para forjar apoios políticos que nunca existiram. Na publicação, a imagem e a voz do cantor Zeca Pagodinho foram manipuladas para simular uma declaração de apoio ao senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência nas eleições de 2026, mas a checagem mostra que o material é falso do início ao fim.
Como o vídeo falso foi construído
A técnica usada na montagem é conhecida como deepfake, um método de inteligência artificial capaz de alterar ou sintetizar imagens, vídeos e áudios de pessoas reais com um nível de realismo que dificulta a identificação a olho nu. No caso específico envolvendo Zeca Pagodinho, uma busca reversa permitiu localizar a gravação original que serviu de base para a manipulação: uma entrevista concedida pelo cantor à revista Veja e publicada no canal da publicação no YouTube em novembro de 2015, mais de dez anos antes da eleição em que o boato tenta inseri-lo.
Na entrevista original, Zeca Pagodinho não faz absolutamente nenhuma menção ao senador Flávio Bolsonaro nem à disputa presidencial de 2026, o que confirma que toda a declaração de apoio foi criada artificialmente e sobreposta às imagens verdadeiras do cantor. Esse tipo de manipulação, que parte de uma gravação real para inserir uma fala inexistente, tende a ser mais difícil de identificar do que uma montagem grosseira, já que o rosto, a voz e os trejeitos da pessoa retratada são genuínos, apenas a fala foi substituída.
Um problema que já preocupa a Justiça Eleitoral
O caso de Zeca Pagodinho não é isolado dentro do cenário das eleições de 2026. Em Rondônia, um vídeo semelhante usou imagem e voz do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para simular apoio ao candidato ao governo do estado Marcos Rogério, do PL, episódio que levou o partido a acionar a Justiça Eleitoral local. Assim como no caso do cantor, a manipulação partiu de uma gravação verdadeira, feita ainda em 2010, posteriormente alterada para incluir uma declaração de apoio que nunca existiu.
Diante do avanço desse tipo de conteúdo, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou em março deste ano a Resolução 23.748, que proíbe expressamente o uso de deepfakes na propaganda eleitoral. A criação desse tipo de material também pode configurar crimes previstos na legislação brasileira, como falsidade ideológica, dependendo do uso dado à montagem, o que reforça a gravidade de casos como o envolvendo o cantor.
Por que esse tipo de vídeo é tão eficaz
Um dos motivos que tornam esse tipo de deepfake especialmente perigoso é a velocidade com que se espalha em comparação ao tempo necessário para desmenti-lo. Criar e publicar uma montagem desse tipo pode levar apenas alguns minutos, enquanto confirmar a origem do material, produzir uma checagem detalhada e comunicar essa informação a todas as pessoas que já viram o vídeo original demanda um tempo muito maior, o que faz com que o desmentido quase sempre chegue depois que o dano já foi causado.
Esse tipo de conteúdo também se aproveita da confiança que o público deposita em figuras públicas queridas, como é o caso de Zeca Pagodinho, amplamente reconhecido por seu carisma e por manter uma postura discreta em relação a posicionamentos políticos explícitos. Justamente por isso, uma declaração de apoio atribuída a ele tende a causar surpresa e repercussão maior do que se a mesma fala fosse atribuída a uma figura já associada a determinado espectro político.
Como identificar vídeos manipulados como esse
Diante de qualquer declaração de apoio político que pareça surpreendente demais para ser verdade, vale sempre buscar a fonte original do vídeo antes de acreditar ou compartilhar o conteúdo. Ferramentas de busca reversa de imagens e vídeos ajudam a localizar a gravação original, como aconteceu nesse caso, permitindo identificar se a fala realmente corresponde ao contexto em que a pessoa aparece falando.
Também é importante observar se a declaração foi divulgada nos canais oficiais da pessoa retratada ou de sua equipe, já que apoios políticos genuínos costumam ser comunicados de forma transparente, e não apenas por meio de vídeos avulsos circulando em redes sociais sem qualquer contextualização. Em caso de dúvida, o mais seguro é aguardar a confirmação de agências de checagem antes de repassar qualquer conteúdo desse tipo, especialmente em um período eleitoral no qual esse tipo de manipulação tende a se tornar cada vez mais frequente.
Fontes:
https://www.agencialupa.org/verificacao/2026/08/13/e-falso-que-zeca-pagodinho-declarou-apoio-a-flavio-bolsonaro-video-e-deepfake/
https://www.rondoniadinamica.com/noticias/2026/08/eleicoes-2026-marcos-rogerio-e-a-primeira-vitima-de-deepfake-em-rondonia-mau-uso-da-ia-pode-pesar-muito-no-bolso,251127.shtml
