Flávio Bolsonaro repete fake news sobre urnas diante de diplomatas estrangeiros

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez 6 Min de leitura

Senador associou as urnas eletrônicas à empresa Smartmatic, teoria desmentida pelo TSE desde 2020, em encontro com representantes de mais de 40 países.

A poucos meses das eleições de 2026, a desinformação sobre o sistema eleitoral brasileiro voltou ao centro do debate político depois que o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) repetiu, diante de diplomatas de mais de 40 países, uma informação já comprovadamente falsa sobre as urnas eletrônicas. O episódio reacendeu a discussão sobre até que ponto boatos antigos continuam sendo usados como estratégia política mesmo depois de desmentidos oficialmente.

A fake news da Smartmatic e o histórico da desmentida

Na ocasião, Flávio associou os equipamentos usados nas eleições brasileiras à empresa Smartmatic, repetindo uma teoria que o Tribunal Superior Eleitoral já havia desmentido oficialmente desde 2020. A Justiça Eleitoral publicou, à época, resposta detalhada descrevendo o modelo de desenvolvimento das urnas e negando qualquer participação da companhia no processo eleitoral brasileiro. Ou seja, não se trata de informação nova, de documento recém-descoberto ou de dúvida ainda sem resposta por parte do tribunal: é a mesma falsidade, reapresentada seis anos depois por um pré-candidato à Presidência.

O pedido para que outros países enviem observadores internacionais às eleições brasileiras, mencionado no mesmo encontro, também não representa novidade nem depende de autorização política do senador. O TSE regulamenta esse tipo de missão desde 2021 e já abriu credenciamento para acompanhar o pleito de 2026, um procedimento padrão em democracias que recebem observadores eleitorais estrangeiros.

O contexto em que a fala ocorreu chama atenção justamente pela plateia: representantes diplomáticos de dezenas de países, que passam a levar de volta aos seus governos uma narrativa de fraude que a própria Justiça Eleitoral brasileira já refutou tecnicamente. Especialistas em desinformação apontam que ataques às urnas deixam de ser comentários isolados quando repetidos nesse tipo de ambiente, passando a disputar a confiança no resultado eleitoral antes mesmo de a votação acontecer.

Um personagem recorrente nas fake news eleitorais de 2026

O episódio com os diplomatas não é um caso isolado. Levantamento da Agência Lupa, publicado em julho, mapeou 86 vídeos no TikTok que simulavam telejornais para divulgar pesquisas eleitorais falsas sobre a disputa presidencial de 2026, boa parte deles usando deepfakes de jornalistas e políticos para dar aparência de credibilidade ao conteúdo fabricado. Entre as figuras públicas mais usadas nesses vídeos, o próprio Flávio Bolsonaro aparece em primeiro lugar, presente em 12 das publicações identificadas.

Em um dos casos descritos pela Lupa, uma conta publicou sete vídeos seguidos usando um deepfake do senador para divulgar pesquisas falsas que o colocavam à frente do pré-candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Depois desse período, o mesmo perfil passou a publicar apenas vídeos de venda de produtos, um padrão que sugere o uso de conteúdo político para ganhar seguidores antes de mudar de assunto, prática que passou a ser identificada como “conta dark” nesse tipo de investigação.

O nome do jornalista César Tralli e da apresentadora Renata Vasconcellos, ambos da Globo, também apareceram entre os mais usados nesses vídeos fabricados, o que mostra como a estratégia de dar credibilidade emprestada a rostos conhecidos do telejornalismo se tornou recorrente entre criadores de desinformação política nas redes.

O papel das plataformas e da Justiça Eleitoral

Diante do avanço desse tipo de conteúdo, o TikTok removeu os vídeos apontados pela investigação da Lupa por violarem suas diretrizes sobre mídia editada e conteúdo gerado por inteligência artificial. A plataforma afirmou que não permite conteúdos de IA que possam induzir ao erro sobre assuntos de importância pública nem retratar figuras públicas fazendo declarações que nunca ocorreram, além de citar medidas de bloqueio adotadas em eleições anteriores.

Para verificar a autenticidade de uma pesquisa eleitoral, o principal canal oficial é o sistema PesqEle, disponível no portal do TSE, onde é possível consultar o instituto responsável, o período das entrevistas, o tamanho da amostra e o número de registro de cada levantamento divulgado. A ausência dessas informações em uma publicação, segundo especialistas ouvidos por agências de checagem, já é um forte indício de que os números não correspondem a uma pesquisa real.

O episódio protagonizado por Flávio Bolsonaro diante dos diplomatas, somado ao volume de deepfakes eleitorais identificados nas redes, ilustra um cenário em que velhas fake news e novas tecnologias de inteligência artificial se combinam para alimentar desconfiança em torno do processo eleitoral brasileiro justamente no ano em que o país vai às urnas escolher seu próximo presidente.

Fontes:
JOLRN — Flávio Bolsonaro dissemina fake news sobre urnas diante de diplomatas
Agência Lupa — Falsa pesquisa eleitoral: deepfakes usam jornalistas e políticos para enganar eleitores

Compartilhe esse artigo