De promoções falsas da Coca-Cola a uma suposta nota de R$ 9 com o rosto de Ronaldo Fenômeno, veja os boatos que já viralizaram durante o Mundial.
Toda Copa do Mundo carrega consigo um fenômeno paralelo que já virou tradição: a enxurrada de boatos, golpes e teorias mirabolantes que circulam pelo WhatsApp, pelo X e pelo Instagram. Em 2026 não foi diferente. Desde os preparativos até os primeiros jogos, a torcida brasileira precisou lidar com histórias falsas envolvendo marcas conhecidas, jogadores queridos e até o Banco Central. Boa parte desse conteúdo já foi checada e desmentida por agências especializadas, mas continua circulando em grupos de família e páginas de humor, muitas vezes sem que ninguém saiba que se trata de invenção.
Golpes que miram o bolso do torcedor
O golpe mais recorrente segue uma receita simples: usar o nome de uma marca famosa para prometer brindes relacionados ao Mundial. Foi o que aconteceu com a Coca-Cola, que teve seu nome usado em uma falsa promoção de “raspadinha” via Pix, compartilhada no WhatsApp. Para participar, a vítima precisava informar dados pessoais e reenviar o link para outros contatos, o método clássico de golpes que se autopropagam. A empresa nunca teve qualquer ligação com a campanha.
O iFood passou por situação parecida, com uma suposta raspadinha premiada oferecendo presentes da Copa em troca de dados dos usuários. Também circulou uma oferta enganosa em nome da Panini, prometendo álbuns e figurinhas por preços muito abaixo do mercado em sites que nada tinham a ver com a fabricante oficial. Quem caiu nesses golpes corre o risco de ter informações pessoais expostas ou de perder dinheiro em compras que nunca chegam.
Ainda dentro dessa categoria, um boato afirmava que a Panini teria processado um garoto que criou, por conta própria, figurinhas caseiras da Copa, cobrando dele uma indenização de US$ 73 mil por suposto plágio. A história indignou milhares de pessoas nas redes, mas não havia qualquer registro do processo nos tribunais, e a empresa jamais confirmou a ação. É um exemplo de como uma narrativa emocional, mesmo sem provas, consegue viralizar rapidamente quando toca em um sentimento de injustiça.
Outro alerta falso, mais antigo no formato mas reciclado para a ocasião, dizia que um vídeo da Argentina campeã seria na verdade um vírus capaz de apagar o celular em dez segundos. É a mesma estrutura de correntes alarmistas que já circularam sobre outros temas ao longo dos anos, apenas com o verniz do Mundial para ganhar credibilidade.
Teorias da conspiração e boatos sobre jogadores
Grandes eventos internacionais costumam atrair também teorias conspiratórias, e a cerimônia de abertura da Copa não escapou. Publicações alegavam que o espetáculo continha símbolos satânicos e gestos ligados aos Illuminati, uma leitura construída a partir de imagens tiradas de contexto e interpretações subjetivas de elementos cênicos. Não havia qualquer evidência de que a cerimônia tivesse relação com grupos secretos, mas esse tipo de narrativa se repete em praticamente todo grande evento global, de olimpíadas a premiações de música.
No campo dos boatos sobre jogadores, um vídeo viral afirmava mostrar o meio-campista Casemiro atacando verbalmente um repórter após ser questionado sobre uma possível ausência de Neymar na Copa. A cena, porém, foi compartilhada fora de contexto e não correspondia aos fatos como foram narrados nas redes. Em outro caso, espalhou-se a informação de que a convocação de Neymar seria uma farsa, já que o atacante estaria lesionado e seria substituído por João Pedro nos jogos seguintes. A informação não tinha fundamento algum.
Também emocionou (e enganou) muita gente uma suposta profecia atribuída a Pelé, segundo a qual o Rei do Futebol teria previsto que Neymar seria o responsável por trazer o hexacampeonato ao Brasil. A frase ganhou força nas redes após a morte de Pelé, mas não há qualquer registro da declaração em entrevistas, livros ou documentos confiáveis, o que reforça como discursos emocionais tendem a ser aceitos sem verificação, especialmente quando envolvem figuras queridas pelo público.
Por fim, uma montagem circulou mostrando uma suposta nota de R$ 9 em homenagem a Ronaldo Fenômeno, que teria sido lançada pelo Banco Central em razão da Copa. A imagem repercutiu bastante, mas o Banco Central nunca anunciou projeto nesse sentido, e trata-se apenas de uma criação gráfica sem qualquer base oficial.
Por que esse tipo de boato continua funcionando
O padrão se repete em quase todos os casos: histórias que misturam algo verdadeiro, como o interesse genuíno pela Copa, com elementos fabricados que exploram emoção, indignação ou vontade de acreditar em algo bonito. Golpes com raspadinhas e promoções falsas seguem funcionando porque imitam campanhas reais que marcas de fato costumam fazer durante grandes eventos esportivos, o que reduz a desconfiança de quem recebe a mensagem.
Já as teorias da conspiração e os boatos sobre jogadores se beneficiam do imediatismo das redes sociais, em que uma publicação chamativa circula muito antes de qualquer checagem chegar até o mesmo público. Quando a desmentida enfim aparece, boa parte de quem viu o conteúdo original já seguiu adiante sem saber da correção.
Especialistas em verificação de fatos costumam recomendar alguns cuidados simples diante desse tipo de conteúdo: desconfiar de promoções que pedem para compartilhar em massa antes de liberar qualquer prêmio, verificar se a marca mencionada realmente confirmou a campanha em seus canais oficiais e buscar o nome do boato em sites de checagem antes de repassar a mensagem para outras pessoas. Esse último passo, simples e rápido, é o que mais evita que uma fake news continue se espalhando.
O fenômeno não é exclusivo do Brasil nem da Copa de 2026, mas o tamanho da torcida brasileira e o volume de conversas geradas pelo Mundial tornam o país um terreno particularmente fértil para esse tipo de conteúdo. Fica o alerta de sempre: antes de compartilhar aquela notícia irresistível sobre a Seleção ou sobre uma marca famosa, vale parar alguns segundos e procurar confirmação em fontes confiáveis.
