Fé pode ser um recurso emocional real em momentos de crise, avalia a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio

Roberto Valtieri
Por Roberto Valtieri 5 Min de leitura

Para muitas mulheres em situação de crise, o primeiro lugar de acolhimento não é um consultório, é uma igreja, um terreiro, um centro espírita ou qualquer espaço de fé que já fazia parte da vida antes do problema aparecer, observa a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, com atuação voltada ao apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade. Isso não é acaso: a fé costuma estar presente muito antes da crise, o que a torna um recurso naturalmente disponível quando tudo o mais parece instável.

Esse movimento não deveria ser visto como alternativa ao cuidado psicológico, mas como um recurso emocional legítimo que frequentemente antecede e sustenta a busca por ajuda profissional.

Por que a fé funciona como sustentação emocional em crise?

Do ponto de vista psíquico, momentos de crise costumam gerar uma sensação de desorganização interna: a pessoa perde a narrativa que dava sentido à própria vida. A fé, para quem a pratica, oferece justamente isso: um sistema de significado capaz de sustentar a pessoa quando a própria história parece ter desmoronado.

Rituais, orações e frequência regular a um espaço religioso cumprem também uma função de ancoragem prática: eles organizam o tempo, criam previsibilidade e oferecem um espaço onde a dor pode ser nomeada sem julgamento, o que nem sempre existe em outros ambientes da vida da mulher. Repetir um gesto conhecido, numa semana em que tudo o mais parece incerto, tem um efeito estabilizador que vai além do conteúdo religioso em si.

O sentido de pertencimento que a comunidade oferece

Taiza Tosatt Eleoterio destaca que o isolamento é um dos fatores que mais agrava situações de vulnerabilidade, e comunidades de fé costumam funcionar como uma das poucas redes sociais que permanecem acessíveis mesmo quando os vínculos familiares estão fragilizados.

Esse pertencimento vai além do encontro semanal. Em muitos casos, é dentro da comunidade religiosa que a mulher encontra quem ouve sem julgar, quem ora junto, quem se dispõe a ajudar de forma prática, com uma cesta básica, uma indicação de emprego ou simplesmente companhia. Para quem já perdeu parte da rede familiar por causa de um relacionamento controlador, essa rede alternativa pode ser a diferença entre enfrentar a crise sozinha ou acompanhada.

Onde a fé ajuda e onde não substitui cuidado profissional?

A fé sustenta, dá sentido e reduz o isolamento, mas não substitui o trabalho de elaboração psíquica que um processo terapêutico oferece. Situações como trauma, dependência emocional grave ou risco de violência continuada exigem acompanhamento especializado, que trabalha em outra camada da experiência, menos ligada ao sentido e mais ligada aos mecanismos internos que sustentam o sofrimento.

Segundo a psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, o ideal não é escolher entre fé e terapia, mas reconhecer que cada uma cumpre uma função diferente, e que buscar apoio psicológico não é sinal de falta de fé, assim como manter a fé não substitui o cuidado que só um processo terapêutico consegue oferecer.

Como equilibrar fé e acompanhamento terapêutico?

Na prática, isso significa que instituições religiosas podem, e deveriam, ser pontes para o cuidado profissional, encaminhando quem procura acolhimento espiritual para serviços de saúde mental quando percebem sinais de sofrimento mais profundo. O contrário também vale: profissionais de saúde mental podem reconhecer a fé como parte legítima da vida de quem atendem, em vez de tratá-la como um assunto à parte.

Para Taiza Tosatt Eleoterio, esse tipo de articulação entre fé e cuidado profissional é o que realmente amplia as chances de recuperação de uma mulher em situação de vulnerabilidade, porque nenhum dos dois caminhos, sozinho, cobre toda a extensão do que ela precisa para reconstruir a própria vida.

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