Qualidade no cacau: por que controle e disciplina valem dinheiro?

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez 5 Min de leitura

Alfredo Moreira Filho pontua um cenário: pergunte a um produtor por que seu último lote recebeu preço inferior ao esperado e a resposta mais provável envolverá o mercado, o comprador ou o clima. Poucas vezes envolverá a própria operação. Essa é a origem do erro mais caro da cacauicultura: tratar qualidade como resultado, quando ela é consequência direta de controle.

Qualidade no cacau se constrói por disciplina de processo, e disciplina de processo se traduz em preço. A distância entre um lote comum e um lote bem classificado está quase sempre em decisões que não custam dinheiro, apenas constância.

O erro de acreditar que qualidade é sorte

Alfredo Moreira Filho destaca que a crença mais persistente é a de que existe cacau bom e cacau ruim por natureza, definidos pela região ou pela variedade. Genética e ambiente estabelecem o potencial, é verdade. Mas o potencial só se realiza por meio do beneficiamento.

Duas propriedades vizinhas, com o mesmo material genético e o mesmo clima, entregam lotes com classificações distintas o tempo todo. Atribuir isso à sorte é confortável, porque remove a responsabilidade. Também é caro, porque impede qualquer correção. Enquanto o produtor não aceitar que o resultado está sob seu controle, ele não terá motivo para mudar nada.

Misturar lotes, o atalho que sai caro

Alfredo Moreira Filho avalia um erro recorrente e quase invisível: juntar cacau de origens ou datas diferentes para completar volume de venda. A intenção é razoável, já que lote maior costuma negociar melhor.

O efeito é o inverso. A classificação considera a média e, principalmente, a dispersão de defeitos. Misturar um lote excelente com um lote medíocre não gera dois lotes médios, gera um único lote puxado para baixo, porque o comprador precifica pelo risco do pior componente. O produtor destrói, em uma decisão logística de cinco minutos, o valor construído em semanas de cuidado.

Confiar na aparência e dispensar a verificação

Amêndoa bem seca por fora pode estar úmida por dentro. Lote de aparência uniforme pode conter percentual elevado de amêndoas que não completaram a fermentação, o que só aparece no teste de corte.

O teste de corte é simples: seciona-se uma amostra e observa-se a coloração interna. Amêndoa bem fermentada apresenta tonalidade marrom e estrutura interna aberta; a ardósia mantém coloração acinzentada e compacta. Fazer esse teste antes de negociar muda a posição do produtor na conversa, porque ele passa a saber o que tem nas mãos. Vender sem verificar é aceitar a avaliação alheia como única fonte de informação.

Sem registro, não existe negociação

Um comprador que recebe lotes de qualidade oscilante trabalha com margem de segurança e paga menos, mesmo quando o lote da vez é bom. Ele está precificando a incerteza. Alfredo Moreira Filho nota que o histórico documentado altera essa dinâmica, porque transfere o ônus da prova. 

Produtor que apresenta registros de fermentação, secagem e umidade de várias safras deixa de ser fornecedor eventual e passa a ser fornecedor conhecido. Relações de fornecimento estáveis, com preço acima da referência, quase sempre nascem desse tipo de previsibilidade, não de uma safra excepcional isolada.

Disciplina como ativo comercial

Vale reposicionar a conversa. Controle de qualidade costuma ser apresentado como custo ou exigência burocrática, algo que se faz para atender ao comprador. É o contrário. O conjunto de rotinas, registros e verificações é um ativo do produtor, no sentido econômico do termo: gera receita recorrente, distingue a operação da concorrência e não pode ser copiado de um dia para o outro. 

Quem constrói esse ativo ao longo de safras sucessivas deixa de vender uma commodity anônima e passa a vender uma origem identificável. É por isso que Alfredo Moreira avalia esse conjunto de rotinas como investimento, e não como despesa. A amêndoa é a mesma. O que mudou foi o que se sabe sobre ela.

 

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